Frequentemente vejo descrições de líderes com muitas atribuições, dentre as quais a de empreendedor, tanto quanto vejo empreendedores sendo descritos como líderes, como se as duas palavras fossem sinônimos ou que todo líder tivesse que ser empreendedor e todo empreendedor precisasse ser líder. Na verdade, não há, necessariamente, esta relação direta. Embora alguns líderes adotem um estilo de liderança voltado para as realizações inovadoras e alguns empreendedores tenham a habilidade de mobilizar pessoas em torno de um objetivo comum, é preciso diferenciar os dois conceitos para evitar confusões.

Este mês fui aos cinemas, como parte do projeto do meu livro ’30 filmes para empreender’ e tive a oportunidade de assistir dois filmes que ainda estão em cartaz e mostram os dois perfis de forma bastante clara: A vida secreta de Walter Mitty, escrito, dirigido e protagonizado por Ben Stiller, e Ender’s Game, com os astros Harrison Ford e Ben Kingsley.

Walter Mitty tem perfil empreendedor, mas nada de líder. O filme usa o cenário dos dias finais da versão impressa da respeitadíssima revista Life para ilustrar um processo de mudança forçada em Mitty, um dos mais antigos funcionários, que cuida de todos os negativos das famosas fotos publicadas pela revista. Embora o trabalho de Mitty fosse absolutamente simples – e ultrapassado – e ele tivesse uma vida sem emoções, sempre alimentou fantasias de si próprio à frente das mais loucas aventuras.

Mitty também tem dificuldade de relacionamento com pessoas, tímido e introvertido, tem poucos amigos, trava na hora de se aproximar de uma mulher e não consegue lidar bem com autoridade. Por força da necessidade – precisa de um negativo que será a capa da última edição impressa e para isso precisa perseguir um fotógrafo pelo mundo – Mitty aprende a se arriscar, a lidar com circunstâncias adversas, improvisar diante da falta de recursos, explorar suas competências, negociar, investigar e trabalhar informações. Não podemos dizer que Mitty é um empreendedor, pois não abriu nenhum negócio nem concluiu nenhum grande projeto, mas suas vivências o transformaram e despertaram o lado empreendedor adormecido por anos de uma vida medíocre.

Ender Wiggin também está em processo de desenvolvimento de suas competências, mas em uma escola criada especialmente para formar líderes. Ele é um dos mais brilhantes alunos da Escola da Guerra, que treina crianças para combater alienígenas que querem tomar a Terra. Wiggin é exposto a diversas situações, todas propositais, para analisar suas reações diante de determinadas situações e, a partir daí, eleva-lo a níveis cada vez mais exigentes. O que torna Wiggin único é sua capacidade estratégica, uma das principais qualidades de um líder.

Ao longo das tarefas e dos exercícios, Wiggin se destaca na sua capacidade de tomar decisões, converter inimigos em aliados, estabelecer conexões pessoais, desenhar estratégias competitivas, estudar os pontos fracos do competidor, balancear as emoções com a razão, explorar todo o potencial de cada membro de sua equipe, lidar com pessoas difíceis, todas características de liderança. Por outro lado, o jovem tem dificuldade para perceber o contexto geral no qual está inserido, questiona as regras, mas se mantém disciplinado a elas, ousa, mas dentro da racionalidade da sua visão estratégica e nunca de forma inconsequente e fica incomodado em situações de incerteza. Teoricamente, Wiggin teria dificuldade de empreender.

Embora sejam situações muito restritas, afinal ambos os filmes são para entretenimento e não para o fim exclusivo de mostrar as diferenças entre os perfis de liderança e empreendedora, os exemplos podem servir como pano de fundo para discussões mais profundas sobre o tema.

Por: Marcos Hashimoto