Ao começar uma de minhas aulas, falei para os alunos: ‘Pessoal, hoje eu vou apresentar os conceitos de estratégia empresarial, mas durante a minha apresentação, eu vou falar uma grande besteira. No final da aula, quem descobrir qual foi a grande besteira que eu falei, vai ganhar um ponto na nota. ’

Os alunos ficaram animados. Não é todo dia que se pode ganhar um ponto fácil assim. Fácil? Vamos ver. Fiz minha exposição, todos eles estavam muito atentos. Talvez mais importante do que ganhar o ponto parecia ser a oportunidade de vencer o professor. O erro foi cuidadosamente escolhido e colocado ao longo da minha fala, de forma bastante imperceptível. Só quem estava bem atento a toda a aula percebeu a contradição que apresentei. No final da aula apenas 3 alunos acertaram o meu erro e ganharam os seus pontos.

Eles gostaram da brincadeira. Repeti o desafio em mais duas aulas. A participação aumentou bastante quando viram que eu não estava brincando com relação ao ponto adicional. No final da terceira vez, todos queriam falar, a maioria errava, claro, mas eu ganhei a atenção dos alunos nas minhas aulas expositivas.

O mais interessante foi na quarta vez. Já era quase o final do semestre, acho que era a antepenúltima aula. Anunciei que íamos fazer a brincadeira pela última vez e todos se arrumaram para prestar muita atenção na aula, principalmente aqueles que ainda precisavam de nota para fechar o semestre.

Só que desta vez eu não mudei nada na minha aula. Propositadamente dei uma aula correta do começo ao fim, mas os alunos, sem saber disto, não só ficaram atentos a aula inteira, como ainda tentaram achar erros na minha fala. Todas estas tentativas devidamente defendidas e respondidas.

Sem eles terem se dado conta, eu desenvolvi neles uma competência fundamental a qualquer empreendedor, o olhar crítico, a capacidade de questionar as ‘verdades inquestionáveis’ que eles até então recebiam passivamente. Vi isso nas minhas aulas expositivas normais. Mesmo sem a brincadeira, a média de alunos prestando atenção na aula, interagindo e questionando, aumentou substancialmente.

Quando revelei que eu não havia inserido nenhum erro na minha aula, muitos ficaram frustrados e a maioria não gostou de ter sido enganada. Expliquei para eles a importância do olhar crítico para desenvolver a capacidade inovadora dos empreendedores.

Vivemos uma era em que a informação deixou de ser recurso raro para se espalhar abundantemente pelas redes na internet e nas mídias. O problema não é mais a falta de informação, mas o excesso dela. Como corolário deste fenômeno testemunhamos a queda crescente na qualidade das informações. Não podemos acreditar em tudo o que vemos, ouvimos ou lemos. No entanto, nossos jovens acreditam em tudo que recebem, principalmente se estas informações e conhecimento vêm em livros, do professor e pela mídia.

Empreendedores conseguem identificar oportunidades ao questionar as verdades absolutas que cegam a maioria das pessoas. O excesso de informação de má qualidade traz como consequência uma sociedade cheia de certezas sobre coisas erradas. Desenvolver um olhar crítico às certezas impostas é abrir a mente para novas possibilidades, novos caminhos e, consequentemente, ideias diferentes.

‘Vocês precisam aprender a desaprender’, completei, ‘saber esvaziar a xícara, livrar-se de conceitos antigos e obsoletos, que até fizeram sentido no passado, mas que agora só limitam a sua capacidade de pensar diferente. Criticar o conhecimento que existe te ajuda a quebrar padrões e encontrar espaços vazios para oportunidades de negócio. ’

Acho que os alunos, pelo menos alguns deles, entenderam e assimilaram a minha mensagem. Como sei disso? É que os professores que vêm depois comentam comigo como esta classe tem alunos ‘impertinentes’. Eu só tento disfarçar meu sorriso de satisfação.

Por Marcos Hashimoto